Rosário Meditado
❮ Todos os artigos

Como se Consagrar a Nossa Senhora pelo Método de São Luís de Montfort

A consagração total a Jesus por meio de Maria, ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort (1673–1716), é uma das devoções marianas mais profundas e recomendadas pela Igreja. Foi praticada por inúmeros santos — entre eles São João Paulo II, que tirou dela o seu lema Totus tuus (“Todo teu”).

Este guia explica, passo a passo, como fazer a preparação de 33 dias e o próprio ato de consagração, seguindo as indicações que o próprio santo deixou no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (os números entre parênteses indicam os parágrafos do livro).

1. Escolha a data

A tradição recomenda fazer a consagração numa festa de Nossa Senhora. Conte 33 dias antes da festa para começar a preparação:

Dia da consagraçãoComece a preparação em
1º de janeiro — Santa Maria, Mãe de Deus29 de novembro
2 de fevereiro — Apresentação do Senhor31 de dezembro
25 de março — Anunciação do Senhor20 de fevereiro (21 em ano bissexto)
13 de maio — Nossa Senhora de Fátima10 de abril
15 de agosto — Assunção de Nossa Senhora13 de julho
8 de setembro — Natividade de Nossa Senhora6 de agosto
7 de outubro — Nossa Senhora do Rosário4 de setembro
12 de outubro — Nossa Senhora Aparecida9 de setembro
8 de dezembro — Imaculada Conceição5 de novembro

São Luís tinha uma devoção especial à Anunciação, 25 de março — o dia em que o Filho de Deus se fez homem no seio de Maria —, e recomendava celebrá-la de modo especial (n. 243 e 248).

2. Prepare-se

Nossa Senhora em oração
Nossa Senhora em oração

Você vai precisar de pouco:

  • O livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, para ler aos poucos durante a preparação.
  • Um terço.
  • Um caderno para anotar as luzes da oração e, no final, escrever e assinar o seu ato de consagração.
  • Se possível, um padre ou diretor espiritual para conversar — não é obrigatório, mas é de grande ajuda.

Reserve cerca de 20 a 30 minutos por dia. A consagração pode ser feita sozinho, em família ou em grupo, na paróquia.

3. Os 33 dias de preparação

Montfort pede pelo menos doze dias para se esvaziar do espírito do mundo e, em seguida, três semanas para se encher de Jesus Cristo pela Santíssima Virgem (n. 227).

Dias 1 a 12 — Desapegar-se do espírito do mundo

O objetivo é reconhecer e rejeitar tudo o que, em nós, é contrário ao espírito do Evangelho: vaidade, apego às coisas, busca de aprovação, comodismo.
Os manuais tradicionais de preparação costumam indicar, para estes dias, a oração do Veni Creator Spiritus, a Ave Maris Stella e a meditação do Evangelho e da Imitação de Cristo.
Pergunta para cada dia: “O que, na minha vida, ainda pertence mais ao mundo do que a Deus?”

Dias 13 a 19 — 1ª semana: conhecimento de si mesmo

Durante esta semana, todas as orações e atos de piedade são oferecidos para pedir o conhecimento de si mesmo e a contrição dos pecados, tudo num espírito de humildade (n. 228).
Orações indicadas por Montfort: a Ladainha do Espírito Santo, a Ave Maris Stella e as ladainhas, repetindo a súplica do cego do Evangelho: “Senhor, que eu veja!” (Lc 18,41).
Bom momento para fazer um exame de consciência sério e preparar uma boa confissão.

Dias 20 a 26 — 2ª semana: conhecimento da Santíssima Virgem

Agora, todas as orações e trabalhos do dia são oferecidos para conhecer Nossa Senhora, pedindo esse conhecimento ao Espírito Santo (n. 229).
Orações indicadas: a Ladainha do Espírito Santo, a Ave Maris Stella e o terço ou Rosário todos os dias.
Leia no Tratado as passagens sobre quem é Maria e sobre o seu papel no plano de Deus.

Dias 27 a 33 — 3ª semana: conhecimento de Jesus Cristo

A última semana é dedicada a conhecer Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada (n. 230).
Orações indicadas: a oração de Santo Agostinho (“Que eu Vos conheça, Senhor, e que me conheça a mim”), a Ladainha do Espírito Santo, a Ave Maris Stella e a Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus.
Medite especialmente nos mistérios da vida de Cristo — e reze o Rosário meditando cada um deles.

4. O dia da consagração

No dia escolhido, Montfort indica (n. 231–232):

  1. Confessar-se — pode ser nos dias anteriores.
  2. Participar da Missa e comungar com a intenção de se dar inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Maria.
  3. Rezar o ato de consagração — de preferência depois da Comunhão — e assiná-lo no mesmo dia.
  4. Oferecer um tributo a Jesus e a Maria, conforme a devoção e as possibilidades de cada um: um jejum, uma mortificação, uma esmola, uma vela.

A fórmula usada é o Ato de consagração de si mesmo a Jesus Cristo, Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria, que se encontra nas edições do Tratado. O texto é longo; seu núcleo é este (tradução nossa do original francês):

Do Ato de Consagração de São Luís de Montfort

SABEDORIA ETERNA E ENCARNADA! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho Unigênito do Pai Eterno e da sempre Virgem Maria. Adoro-Vos profundamente, no seio e nos esplendores do Vosso Pai, durante toda a eternidade, e no seio virginal de Maria, Vossa Mãe digníssima, no tempo da Vossa Encarnação. Dou-Vos graças por Vos terdes aniquilado a Vós mesmo, tomando a forma de escravo, para livrar-me da cruel escravidão do demônio. Eu Vos louvo e glorifico por Vos terdes querido submeter em tudo a Maria, Vossa Mãe Santíssima, a fim de, por Ela, tornarme Vosso fiel escravo. Entretanto, ai de mim, criatura ingrata e infiel! Não guardei os votos e promessas que tão solenemente Vos fiz no meu Batismo. Não cumpri as minhas obrigações; não mereço ser chamado Vosso filho, nem Vosso escravo; e, como nada há em mim que não mereça a Vossa repulsa e a Vossa cólera, não ouso aproximar-me por mim mesmo da Vossa Santíssima e Augustíssima Majestade. Recorro, pois, à intercessão e à misericórdia de Vossa Mãe Santíssima, que me destes por medianeira junto de Vós. É por intermédio d'Ela que espero obter de Vós a contrição e o perdão dos meus pecados, a aquisição e conservação da Sabedoria. Ave, pois, ó Maria Imaculada, Tabernáculo Vivo da Divindade, onde a Eterna Sabedoria escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens. Ave, ó Rainha do Céu e da Terra, a cujo Império é submetido tudo o que há abaixo de Deus. Ave, ó Seguro Refúgio dos pecadores, cuja misericórdia a ninguém despreza. Atendei ao desejo que tenho da Divina Sabedoria, e recebei, para isso, os votos e ofertas apresentados pela minha baixeza, apresento a vós: Eu, (nome de quem vai se consagrar), infiel pecador, renovo e ratifico hoje, nas Vossas mãos, as promessas do meu Batismo: renuncio para sempre a Satanás, às suas pompas e suas obras, e dou-me inteiramente a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, para o seguir, levando a minha Cruz, todos os dias da minha vida. E para lhe ser mais fiel do que até agora tenho sido, escolho-Vos hoje, ó Maria, na presença de toda a Corte Celeste, por minha Mãe e Senhora. Entrego-Vos e consagro-Vos, na qualidade de escravo, o meu corpo e a minha alma, os meus bens interiores e exteriores, e o próprio valor das minhas boas obras passadas, presentes e futuras, deixando-Vos pleno e inteiro direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção alguma, segundo o Vosso agrado e para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade. Recebei, ó Benigníssima Virgem, esta pequenina oferta da minha escravidão, em união e em honra à submissão que a Sabedoria Eterna quis ter à Vossa Maternidade; em homenagem ao poder que ambos tendes sobre este vermezinho e miserável pecador; em ação de graças pelos privilégios com que largamente Vos favoreceu a Trindade Santíssima. Protesto que quero, de hoje em diante e firmemente, como Vosso verdadeiro escravo, buscar a Vossa honra e obedecer-Vos em todas as coisas. Ó Mãe Admirável, apresentai-me ao Vosso amado Filho na condição de escravo perpétuo, a fim de que, tendo-me resgatado por Vós, por Vós também me receba propiciamente. Ó Mãe de Misericórdia, concedei-me a graça de obter a Verdadeira Sabedoria de Deus, e de colocar-me, para isso, entre o número daqueles que amais, ensinais, guiais, sustentais e protegeis como filhos e escravos Vossos. Ó Virgem Fiel, tornai-me em tudo um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, Vosso Filho, que eu chegue um dia, por Vossa intercessão e a Vosso exemplo, à plenitude da sua idade na Terra e da sua glória no Céu. Amém. Assim seja.

5. Depois da consagração: como viver

A consagração não termina no dia da festa — ela é o começo de um modo de viver. Montfort resume a prática interior desta devoção em fazer todas as coisas por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus (n. 257).

Práticas recomendadas pelo santo:

  • Renovar a consagração todos os anos, na mesma data, com nova preparação (n. 233).
  • Renovar todos os dias, com uma jaculatória simples: “Sou todo vosso, ó Maria, e tudo o que tenho é vosso” (“Totus tuus ego sum, et omnia mea tua sunt”) (n. 233).
  • Rezar o terço ou Rosário diariamente (n. 249–254).
  • Rezar com frequência o Magnificat, em ação de graças pelos dons de Deus a Maria (n. 255).
  • Celebrar com devoção especial a festa da Anunciação (n. 243 e 248).
  • Como sinal exterior, há quem use uma pequena corrente ou medalha bentas, recordando a pertença amorosa a Jesus e a Maria (n. 236) — é opcional.

Dúvidas frequentes

Por que se fala em “escravidão”?

Montfort usa a expressão “santa escravidão de amor” para indicar uma pertença total e livre, por amor — como a própria Virgem, que se disse “a serva do Senhor” (Lc 1,38). Não tem nada a ver com uma escravidão imposta: é a entrega de quem escolhe pertencer inteiramente a Deus.

Se eu esquecer um dia, preciso recomeçar?

Não há uma regra rígida no Tratado sobre isso. Se perder um dia, retome com paz e, se possível, recupere as orações. O que importa é a sinceridade do coração e o desejo de se dar a Jesus por Maria — e não a perfeição do cumprimento.

Depois de consagrado, ainda posso rezar pelas minhas intenções?

Sim. Você continua rezando pela família, pelos amigos e por tudo o que precisa. A diferença é que entrega a Maria o valor das suas boas obras, confiando que Ela, como Mãe, saberá aplicá-lo da melhor forma.

Isso não diminui o lugar de Jesus?

Ao contrário. A consagração é feita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Como lembrou São João Paulo II, citando Montfort: quanto mais uma alma estiver consagrada a Maria, tanto mais estará consagrada a Jesus Cristo.

Rezar o Rosário meditado


Fontes

  • São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, em especial n. 120–121, 227–233, 243–257.
  • São Luís Maria Grignion de Montfort, O Amor da Sabedoria Eterna (Ato de consagração).
  • São João Paulo II, Carta às Famílias Monfortinas (2004): vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2004/documents…